Estacionamento ou Ciclovia?

Assunto fervilhante do momento e prática usual desde a origem do automóvel, a apropriação do espaço público nas vias e outras áreas de convívio para fins de estacionamento particular tramita entre a falsa premissa do direito adquirido e a obviedade da apropriação indevida.

Considerando que as normas legislativas são em crua instância reflexos do comportamento social, a questão vai além do direito constitucional de ir e vir e de regras específicas de trânsito. Trata-se da reinvenção das cidades, da humanização dos conglomerados urbanos transformados em malhas de corredores automobilísticos onde a soberania absoluta é dos veículos automotores, e subordinados a estes ficam todos os outros meios de locomoção não motorizados. 

Modelo esgotado principalmente pela superlotação das vias, repensar como são utilizadas e valorizar o deslocamento humano sustentável mostra-se como a solução mais racional, simples e econômica, plenamente justificável dentro de sistemas intermodais de transporte. Estudos aprofundados de implementações em comunidades internacionais avalizam a implantação de malhas cicloviárias extensas, realizadoras em primeiro momento da interligação de pontos de maior interesse.  Entre os “efeitos colaterais”, promovem melhorias na qualidade de vida da comunidade, principalmente na saúde, disposição física, redução do estresse e aumento do envolvimento social. Seguindo esta linha, interferem positivamente em variados e até mesmo inusitados aspectos existenciais.

Pontualmente quanto à substituição das vagas de estacionamento para automóveis nas ruas por ciclovias, a questão tem aspectos aparentemente invisíveis que são desconsiderados pelos resistentes à medida. Comerciantes argumentam que seus negócios seriam prejudicados pela falta de local para estacionamento, o que acarretaria em menor fluxo de clientes aos estabelecimentos e consequentes prejuízos financeiros. Desconhecem, esquecem ou, propositalmente ignoram, que tal alteração viária arrasta consigo uma grande mudança comportamental, benéfica para o tráfego de moradores próximos e que, pelas características do deslocamento à baixa velocidade, expõe melhor suas vitrines e instalações. Constatável, os passantes de bicicleta desfrutam de experiências visuais e sensitivas muito mais imersivas que os motoristas e por estarem menos sujeitos ao normal estresse que a maioria daqueles apresenta, mostram-se mais receptivos aos apelos de marketing de fachada e às relações interpessoais no caminho. Isto ecoa positivamente no desempenho comercial.

Outras questões referem-se à perda do estacionamento permanente de seus automóveis e ao risco que as bicicletas representam para os moradores vizinhos das ciclovias. A primeira alegação evidencia o uso privado do espaço público e por si mesma esvazia-se.  Quanto ao risco, trata-se apenas da falta de comparação honesta entre os veículos: bicicletas causam muito menos acidentes graves, mesmo com a intensificação do uso.

Bem, a conclusão remete à readequação do uso das áreas urbanas, onde os benefícios à maioria superpõem-se aos interesses pessoais e comerciais. É o resgate da cidade para a comunidade, a sensatez da adoção de medidas simples e politicamente corajosas, impulsionadas pela urgente necessidade de desobstrução e rehumanização da estrutura viária.

 

Artigo de Antonio Filho, Presidente do Instituto DBike.
Revista CNT Transporte Atual

da Conferação Nacional do Transporte | SEST CENAT
Edição 228 – set 2014 | Seção Tema do Mês |  pág. 78
Título original: “Vagas de estacionamento devem dar lugar às ciclovias?”

 

Autor: Tuca Näher

Administradora; Sócia-fundadora, Diretora Financeira e Conselheira Consultiva do Instituto DBike; ativista social engajada em causas ecológicas e beneficentes. Co-fundadora das Campanhas Vou de Bike e Eco Pensar, atuando nas redes sociais Facebook e Twitter desde 2010.

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