Bicicletas: Notoriedade e Infraestrutura

Recentemente, fomos perguntados sobre a notoriedade na mídia que as ciclovias e ciclofaixas têm dado à bicicleta e sobre as dificuldades para implantação da infraestrutura cicloviária no país. Contrariamente ao enunciado, foi a bicicleta quem colocou as ciclovias e ciclofaixas no topo das pautas, pois as antecede em existência e importância como meio de transporte individual, universalmente utilizado em menor ou maior frequência.

A origem da questão está na exaustão do modelo baseado no transporte automotivo individual, que saturou as ruas e estradas no mundo todo e vem tornando extremamente sacrificante o deslocamento urbano, tanto para os próprios motoristas quanto para os usuários de outros modos de transporte, incluindo o pedonal (à pé).

Tendo como base a infraestrutura para suportar o crescente e descontrolado uso de automóveis, as cidades priorizaram seus espaços urbanos de forma que veículos individuais sustentáveis não encontrassem vias apropriadas para trânsito, seja por sobrecarga e fluxo, por risco de acidentes ou mesmo dificultação ao destino. Com o colapso das vias, as administrações públicas buscam urgentemente estabelecer novos ou replanejar os planos de mobilidade urbana, exigência federal de acordo com a Lei nº 12.587/2012, adotando antecipadamente o incentivo ao uso da bicicleta e intermodalidade entre meios de deslocamento por serem essas as providências mais simples para implantação a curto prazo e de menor custo.

Baixo custo e simplicidade para implantação não significam necessariamente facilidade: fatores culturais e sociais, além das naturais equações que a engenharia de trânsito precisa resolver, via de regra são obstáculos por vezes dolorosos a serem ultrapassados. Na cidade de São Paulo isto ficou claramente demonstrado através das reações irracionais de segmentos conservadores e elitizados da sociedade, que visam a manutenção exclusiva dos seus interesses pessoais acima dos coletivos. Sob mesma ótica, diversos municípios brasileiros enfrentam situações similares. Tais cidadãos convenientemente ignoram a tendência mundial pela busca por melhores condições de vida nas cidades, fator intimamente ligado à adequação da mobilidade ao meio.

Cidades que perceberam a importância do planejamento da mobilidade urbana a longo prazo para a manutenção do bem-estar dos seus cidadãos tomaram a dianteira no processo de democratização das vias. Algumas, como Amsterdam e Copenhagen, trazem de décadas experiências bem sucedidas, seguidas recentemente por Londres, Paris, Berlin, Bogotá, Nova Iorque, entre as maiores, e centenas de outras espalhadas pelo mundo, sendo tendência irrefreável e irreversível.

No Brasil, como experimentado pelas demais cidades internacionais, o fator mais importante para o desenvolvimento dessa infraestrutura é a vontade/coragem política, visto que confrontará aqueles interesses egoístas citados, mas uma vez implementado demonstra-se como ótima solução em vários aspectos, dos sociais e ambientais aos econômicos. Já há estatísticas consolidadas sobre as vantagens para o comércio, qualidade de vida e funcionamento da cidade – exemplos notórios são os de Nova Iorque, onde os números positivos além das expectativas calaram os inicialmente agressivos contrariadores. Aqui se dará o mesmo.

Sorocaba, Curitiba, Rio de Janeiro e, festejadamente São Paulo, entre outras várias com menor notoriedade, são cidades onde as políticas para priorização dos meios sustentáveis de transporte – coletivos, bicicletas, à pé – estão sendo implementadas com velocidade acelerada. Por exigência federal, todas as cidades com mais de vinte mil habitantes necessitarão apresentar até março do próximo ano à Secretaria da Mobilidade Urbana, do Ministério das Cidades, planos municipais de mobilidade urbana que atribuam destaque para a intermodalidade e mobilidade sustentável. Cidades com menor população também devem apresentar seus planos de mobilidade priorizando de forma mais intensiva a mobilidade à pé e por bicicletas.

Portanto, presenciaremos daqui para diante uma grande expansão neste campo e a cada dia mais notícias animadoras, até que as atitudes hoje corajosas se tornem praxe entre gestores públicos responsáveis e comprometidos com desenvolvimento racional de seus municípios e o bem estar dos cidadãos.      

Autor: Tuca Näher

Administradora; Sócia-fundadora, Diretora Financeira e Conselheira Consultiva do Instituto DBike; ativista social engajada em causas ecológicas e beneficentes. Co-fundadora das Campanhas Vou de Bike e Eco Pensar, atuando nas redes sociais Facebook e Twitter desde 2010.

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